Noite de Lua (e cabeça) cheia.
Um conto avulso em primeira pessoa.
As folhas dos pinheiros e araucárias caíam sobre o solo, enquanto os grilos cantavam alto e em bom tom. Já os lobos uivavam para a Lua cheia, que iluminava o céu escuro daquela noite de inverno. E as brisas suaves da noite traziam consigo um agradável cheiro de eucalipto, capaz de revigorar cada pulmão com uma única inalação.
Dentro daquela modesta e aconchegante cabana de madeira, eu estava ali, sentado em uma cama de casal de lençóis brancos, enrolado em minha manta vermelha favorita, olhando fixamente para a janela limpa à minha esquerda, contando cada segundo que se passava como se eu esperasse o sol chegar.
Apesar da calma do ambiente rural, minha mente continuava presa às velhas prioridades da Cidade Grande.
Precisava escrever posts novos, verificar minhas ações na bolsa de valores, antecipar boletos, ler mais um capítulo de Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas...
Minha mente girava em círculos, pensamentos atropelando uns aos outros como em um furacão.
Deitada ao meu lado direito, estava a minha linda esposa, cujos cabelos negros cobriam seus olhinhos fechados.
Ver ela ali, repousando em um sono tão leve e angelical, me fazia perguntar-me como ela estava tão tranquila, mesmo tendo tantas responsabilidades como eu.
Ela era o perfeito contraste com o meu estado de espírito. De repente, um pico de afeto me tomou. Eu me sentia o guardião daquela alma serena, como se tivesse de ser forte o tempo todo para garantir sua segurança.
— "Eu tenho que protegê-la… a todo custo, mesmo que isso custe a minha vida" — murmurei. Logo percebi: era só mais uma cobrança, entre tantas outras. Nós tínhamos apenas três dias de casados, e eu já me via nessa situação ridícula.
Como eu não conseguia ficar quieto, eu apenas me levantei da cama e abri a janela. A brisa gelada bateu em meu rosto imediatamente, mas a minha cabeça não esfriou.
"Você precisa trabalhar", um pensamento intrusivo disse.
"Todo homem tem que ser provedor e protetor. Trabalhe mais!", outro apareceu.
Era o fim da picada. A pressão dentro da minha cabeça já parecia maior do que o próprio silêncio da cabana.
Como já era de madrugada e eu não queria ter uma crise, comecei a olhar a paisagem para me distrair.
Mas minha consciência não me deixava em paz. Pelo contrário: parecia querer me derrubar. Naquele momento surgiu o golpe final na minha frágil sanidade mental:
"Se você não trabalhar, a sua esposa irá te abandonar!"
Quando meus olhos passearam pela paisagem, encontrei um cipreste italiano perto do terreno arenoso onde meu carro estava estacionado, não muito longe de onde eu estava. Por algum motivo, aquilo virou o alvo perfeito para minha raiva reprimida.
— "Tenho que ganhar mais dinheiro! Você me entende? Você conhece alguém que está contratando um publicitário?!" — gritei.
A árvore apenas se mexeu para um lado e para o outro com o vento. Momentaneamente, isso me soou como uma ofensa pessoal.
— "Você não tem responsabilidades?! Ao invés de ficar aí parado balançando, por que não me ajuda a arranjar serviços para alguma empresa?" — continuei a gritar.
A árvore permanecia ali, balançando com o vento, sem aparentar entender uma palavra sequer dita por mim.
— "Eu entendo, você é só um cipreste, e não precisa se preocupar com nada. Mas eu, como ser humano, preciso ganhar rios de dinheiro e dar tudo do bom e do melhor para a minha esposa. Se eu não fizer isso, serei um péssimo marido!" — continuei, encarando a árvore fixamente.
Enquanto minha voz ecoava para a árvore sem qualquer resposta, percebi o quanto aquilo soava absurdo. E foi nesse instante que um grilo pousou no parapeito da janela, ao meu lado, cantando alto como se zombasse de mim.
— "Você aí! É sócio de alguma startup? Eu sou o dono de uma agência publicitária e adoraria firmar parceria." gritei para o grilo, que pulou para fora e desapareceu no mato.
Quando finalmente parei para respirar, o silêncio voltou a me envolver — pesado, quase opressor. Foi nesse instante que percebi o quão ridículos foram cada grito dirigido à árvore e ao grilo.
— "Olha o que eu estou fazendo com a minha vida!!!"
— "A-amor?"
Meu corpo todo travou e meus olhos arregalaram. Olhei para trás. A minha esposa tinha acordado, aparentemente por causa da minha gritaria.
— "É… Oi amor. Sabe, eu estava…"
— "Em mais uma crise de insegurança por se achar um péssimo marido?" ela corou.
— "Ah… Sim."
Imediatamente ela se levantou da cama e, enquanto eu ainda estava tentando processar toda aquela situação, seus braços me envolveram com aquele mesmo afeto de antes. Eu podia sentir isso através do contato entre a sua pele macia e o cobertor em que eu estava enrolado
— "Amor, desde que começamos a morar juntos nunca nos faltou nada. Por que você ainda se compara com esses homens da internet?"
— "Você sabe, eu quero ser o melhor marido–" ela pôs o dedo indicador entre os meus lábios, indicando que queria meu silêncio. Me calei.
— "Para mim, você já é o melhor marido de todos" — continuou — "Mas você só precisa parar de se comparar com os homens do Instagram, ok? Até porque, nossa única referência é o Senhor Jesus Cristo, e não esses rapazes artificiais. Isso é tudo o que eu te peço."
Balancei a minha cabeça, indicando que sim. Então ela se soltou de mim, puxando minha manta no processo.
— "Bem… então tá. Amanhã tem mais." falei.
Deitei-me no lado esquerdo da cama, ainda virado para a janela. Senti a cama afundar atrás de mim e umas mãos geladas tocarem meus ombros.
— "Eu mal posso esperar para amanhã…" sussurrou ela, notavelmente sonolenta.
Agora eu podia dormir. Toda aquela ansiedade que tomara conta da minha cabeça há pouco tempo desapareceu. A luz da Lua, a brisa suave que batia no quarto e o cheiro de eucalipto logo me trariam até a terra dos sonhos.
Eu só espero que o cipreste não decida me processar, e que o grilo não peça meu cartão de visitas


